Administrar os pensamentos e as emoções

Hoje recomendo a leitura deste magnífico texto sobre meditação retirado do livro "A arte de meditar", de Matthieu Ricard. 
Ensina a controlarmos nossos pensamentos e emoções, evitando reações explosivas e decisões tomadas por impulso. A meditação quando bem feita, nos deixa com o pé no chão ao mesmo tempo que nos leva para as profundezas da mente.
Boa leitura!

Ouve-se frequentemente dizer que o budismo, em geral, e a meditação, em particular, visam a suprimir as emoções. Tudo depende do que se entende por “emoção”. Se se tratar de perturbações mentais tais como o ódio e o ciúme, por que não nos livrar delas? Se se tratar de um forte sentimento altruísta ou de compaixão em relação aos outros que sofrem, por que não desenvolver essas qualidades? Esse é o objetivo da meditação.
A meditação nos ensina a administrar os acessos de raiva malévola ou de ciúme, as ondas de desejo incontrolável e os medos irracionais. Libera-nos da imposição dos estados mentais que obscurecem nosso julgamento e são fonte de incessantes tormentos. Fala-se, então, em “toxinas mentais”, pois esses estados mentais intoxicam, verdadeiramente, nossa existência e a dos outros.
A palavra “emoção” provém do latim emovere, que significa “por em movimento”. Uma emoção é, então, o que faz movimentar a mente, seja ela em direção a um pensamento nocivo, neutro ou benéfico. A emoção condiciona a mente e a faz adotar uma certa perspectiva, uma certa visão das coisas. Essa visão pode estar de acordo com a realidade, no caso do amor altruísta e da compaixão, ou deturpada, no caso do ódio ou da avidez. Como enfatizamos acima, o amor altruísta é uma tomada de consciência do fato de que todos os seres desejam, como nós, ser libertados do sofrimento e se baseia no reconhecimento de sua interdependência fundamental, da qual participamos. O ódio, ao contrário, deforma a realidade ampliando os defeitos de seu objeto e ignorando suas qualidades. Do mesmo jeito, o desejo ávido nos faz perceber seu objeto como desejável em todos os aspectos, ignorando seus defeitos. Deve-se convir que certas emoções são perturbadoras e outras benfazejas. Se uma emoção reforça nossa paz interior e nos incita ao bem do outro, podemos considerá-la positiva ou construtiva; se destrói nossa serenidade, perturba profundamente nosso espírito e nos leva a prejudicar os outros, ela é negativa ou perturbadora. É o que diferencia, por exemplo, uma indignação vigorosa, uma “santa cólera”, diante de uma injustiça que testemunhamos de uma cólera motivada pela intenção de fazer mal ao outro.
O importante não é, então, esforçarmo-nos muito para suprimir nossas emoções, o que seria em vão, mas fazer com que elas contribuam para nossa paz interior e nos levem a pensar, falar e agir de maneira bondosa com os outros. Para isso, devemos evitar ser o joguete dessas emoções, aprendendo a dissolver as que são negativas à medida que surgem e a cultivar as que são positivas.
Devemos compreender também que é o acúmulo e o encadeamento das emoções que determinam nossos humores, que duram alguns instantes ou dias, e formam, a longo prazo, nossas tendências e nossos traços de caráter. Assim, se aprendermos a administrar nossas emoções da melhor maneira, pouco a pouco, de emoção em emoção, dia após dia, acabaremos transformando nossa maneira de ser.
Essa é a essência do treinamento da mente e da meditação sobre as emoções.
Entre os diversos métodos que permitem administrar as emoções pela meditação, explicaremos dois: o primeiro consiste em aplicar antídotos; o segundo, a não se identificar com essas aflições efêmeras, reconhecendo sua verdadeira natureza.


RECORRENDO AOS ANTÍDOTOS

Antídoto designa aqui um estado de espírito diametralmente oposto à emoção perturbadora que desejamos combater. Da mesma forma que um copo de água não pode ser, ao mesmo tempo, frio e quente, não podemos simultaneamente querer fazer o bem e o mal à mesma pessoa. Trata-se, portanto, de cultivar remédios suficientemente poderosos para neutralizar as emoções que nos perturbam.
Visto sob outro ângulo, quanto mais desenvolvemos a benevolência, menos lugar haverá na mente para seu contrário, a malevolência. Da mesma forma, quanto mais luz houver num cômodo, mais a escuridão se dissipará. Nas meditações que se seguem, tomaremos primeiramente como exemplo o desejo, depois a raiva maléfica.


O desejo

Ninguém contesta que seja natural desejar, e que o desejo represente um papel essencial na vida para realizarmos nossas aspirações. Mas o desejo não é mais que uma força cega, nem benéfica nem nefasta por si mesma. Tudo depende da influência que o desejo exerce sobre nós. É capaz de inspirar nossa existência como pode também envenená-la. Pode nos incitar a agir de maneira construtiva para nós mesmos e para os outros, mas pode representar intensos tormentos. É o caso quando ele se torna uma sede que nos tortura e nos consome. Pode nos tornar dependentes das próprias causas do sofrimento. Ele é, então, fonte de infelicidade, não havendo nenhuma vantagem em permanecer como sua vítima. Para esse tipo de desejo, aplicaremos como antídoto a liberdade interior.


MEDITAÇÃO

Se somos prisioneiros de um desejo poderoso que nos perturba e nos obceca, comecemos por examinar suas características principais e identifiquemos os antídotos apropriados.
O desejo tem um aspecto de urgência. Acalmemos nossos pensamentos observando as idas e vindas da respiração como descrevemos anteriormente.
O desejo tem um aspecto coercitivo e perturbador. Como antídoto, imaginemos a satisfação e o alívio que acompanham a liberdade interior. Dediquemos alguns momentos a deixar esse sentimento de liberdade nascer e crescer em nós. O desejo tem tendência a deformar a realidade e a considerar seu objeto como fundamentalmente desejável. Para restabelecer uma visão mais justa das coisas, analisemos calmamente o objeto do desejo sob todos os seus aspectos, e meditemos alguns instantes sobre seus lados menos atraentes, até mesmo indesejáveis,
Finalmente, deixemos nossa mente descansar na paz da consciência plena, livre de esperança. De temor, e apreciemos o frescor do momento presente, que age como um bálsamo sobre o fogo do desejo.


“Uma mente sossegada não é sinônimo de mente vazia de pensamentos, de sensações e de emoções. Uma mente pacífica não é uma mente ausente”

Thich Nhat Hanh

“Tratar o desejo da seguinte maneira. Observe o pensamento ou a sensação quando eles aparecem. Observe o estado mental do desejo que os acompanha como uma coisa distinta. Note a extensão ou o grau exato desse desejo. Em seguida, observe quanto tempo duram e quando, finalmente, desaparecem. Quando tiver feito isso, transfira sua atenção para a respiração”.

Bhante Henepola Gunaratna

“Como é bom nos coçar quando sentimos qualquer coceira, mas que felicidade quando a coceira desaparece. Como é bom satisfazer nossos desejos, mas que felicidade ao ficarmos livres dos desejos.

Nagarjoûna

A raiva

A raiva egocêntrica, precursora do ódio, obedece ao impulse de afastar todo aquele que puser algum obstáculo ao que nosso eu exige, sem consideração pelo bem-estar do outro. Ela se expressa com uma hostilidade aberta quando o ego ameaçado decide contra-atacar, e com ressentimento e rancor quando ele é ferido, desprezado ou ignorado. Uma simples cólera pode estar associada à malevolência, ao desejo de prejudicar conscientemente alguém.
A mente, obcecada pela animosidade e pelo ressentimento fecha-se na ilusão e se convence de que a fonte de sua insatisfação reside inteiramente fora de si mesma.
Na verdade, mesmo se o ressentimento foi desencadeado por um objeto exterior, ele não se encontra em outro lugar que não seja na nossa mente. Além disso, se nosso ódio for uma resposta ao ódio do outro, desencadearemos um círculo vicioso que jamais terá fim. A meditação a seguir não tem por objetivo reprimir o ódio, mas voltar nossa mente para o que lhe é diametralmente oposto: o amor e a compaixão.

MEDITAÇÃO I

Consideremos alguém que se comportou com maldade contra nós ou contra nossos próximos, fazendo-nos sofrer. Consideremos também os seres que causam, ou causaram, imensos sofrimentos aos outros. Se os venenos mentais que os levaram a agir assim pudessem desaparecer de sua mente, eles deixariam de ser nossos inimigos e também da humanidade. Desejemos do fundo do coração que essa transformação aconteça. Para esse fim, podemos recorrer à meditação sobre o amor altruísta, formulando, como já vimos, o seguinte voto: “Que todos os seres possam se libertar do sofrimento e das causas do sofrimento. Que o ódio, a avidez, a arrogância, o desprezo, a indiferença, a avareza e o ciúme desapareçam de sua mente para serem substituídos pelo amor altruísta, pelo contentamento, pela modéstia, pela apreciação, pela solicitude, pela generosidade e pela simpatia”.
Deixemos esse sentimento de benevolência incondicional invadir todos os nossos pensamentos.

MEDITAÇÃO 2

Se formos tomados pela ansiedade – quando ficarmos retidos num engarrafamento, por exemplo, e corrermos o risco de perder o avião-, tentemos ficar plenamente conscientes dessa ansiedade. À medida que exercermos nossa consciência plena, perceberemos que a ansiedade se tornará menos intensa. Por quê? Porque a parte de nossa mente que está consciente da ansiedade não é, ela mesma, ansiosa. Ela é simplesmente consciente.
Momentos antes, a ansiedade preenchia toda nossa paisagem mental. Agora, ela só ocupa uma parte e divide esse espaço com a consciência plena. Observemos que, à medida que a consciência plena se ampliam a ansiedade vai desaparecendo, até perder a capacidade de perturbar nossa mente, para finalmente dar lugar à paz recuperada.


“Não vejo outra saída: que cada um de nós faça um retorno sobre si mesmo e extirpe e aniquile em si mesmo tudo o que ele acredita dever ser aniquilado nos outros. E estejamos convencidos de que o mínimo átomo de ódio que acrescentamos a este mundo torna-o ainda mais inóspito do que já é.”

“Não creio que possamos corrigir o que quer que seja no mundo exterior sem que o tenhamos, primeiramente, corrigido em nós. A única lição dessa guerra pe ter nos ensinado a procurar em nós mesmos e não alhures.”

Etty Hillesum

“Já é tempo de desviar o ódio de seus alvos habituais, seus pretensos inimigos, para dirigi-lo contra ele mesmo. Com efeito, seu verdadeiro inimigo é o ódio, e é ele que você deve destruir”.

Khyentsé Rinpoche


“Cedendo ao ódio, não prejudicamos necessariamente nosso inimigo, mas danificamos a nós mesmos. Perdemos nossa paz interior, não fazemos mais nada corretamente, digerimos mal, não dormimos mais, espantamos aqueles que vêm nos ver, lançamos olhares furiosos àqueles que ousam cruzar nosso caminho. Tornamos impossível a vida de quem mora conosco e afastamos nossos amigos mais caros. E, como aqueles que se compadecem de nós são cada vez menos numerosos, ficamos cada vez mais sós. […] De que serve? Mesmo se formos até o fim de nossa raiva, jamais eliminaremos todos os nossos inimigos. Conhece alguém que tenha conseguido fazê-lo? Enquanto guardamos em nós esse inimigo interior que é a cólera ou o ódio, poderemos destruir nossos inimigos exteriores hoje, mas outros aparecerão amanhã”.

XVIº Dalai Lama


CESSEMOS DE NOS IDENTIFICAR COM NOSSAS EMOÇÕES

A segunda maneira de enfrentar nossas emoções perturbadoras consiste em dissociar mentalmente a emoção que nos aflige. Habitualmente, nós nos identificamos completamente com nossas emoções. Quando somos tomados por um acesso de raiva, transformamo-nos num só com ela. Ela é onipresente em nossa mente e não deixa nenhum lugar para outros estados mentais, tais como a paz interior, a paciência ou a consideração das razões que poderiam acalmar nosso descontentamento. Entretanto, se naquele momento formos ainda capazes de ter um pouco de presença de espírito – capacidade que pode ser treinada -, poderemos cessar de nos identificar com a raiva.
A mente é capaz de examinar o que se passa nela. Basta que ela observe suas emoções como faríamos com um acontecimento exterior que se produz diante de nossos olhos. Ora, a parte de nossa mente que está consciente da raiva está simplesmente consciente: ela não está com raiva. Ou seja, a consciência plena não é afetada pela emoção que observa. Compreender permite tomar distância, conscientizar-se de que essa emoção não tem nenhuma substância, e deixar-lhe espaço suficiente para que ela se dissolva por si mesma.
Agindo assim, evitamos dois extremos, ambos prejudiciais: reprimir a emoção, que permanecerá em algum lugar sombrio de nossa consciência, como uma bomba-relógio, ou deixa-la explodir, em detrimento daqueles que nos cercam e de nossa própria paz interior. Não se identificar com as emoções constitui um antídoto fundamental aplicável em todas as circunstâncias.
Na próxima meditação, tomaremos novamente como exemplo a cólera, mas o processo é o mesmo para qualquer outra emoção perturbadora.

MEDITAÇÃO

Imaginemos que estamos dominados por uma forte raiva. Achamos que não temos outra escolha a não ser nos deixar levar por ela. Impotente, nossa mente se volta sem cessar para o objeto que desencadeou sua raiva, como o ferro em direção ao ímã. Se alguém nos insultou, a imagem dessa pessoa e suas palavras voltam constantemente ao nosso pensamento. E cada vez que pensamos nisso desencadeamos uma nova labareda de ressentimento que alimenta o círculo vicioso dos pensamentos e das reações a esses pensamentos.
Mudemos, então, de tática. Desviemo-nos do objeto de nossa raiva e contemplemos a própria raiva. Seria um pouco como se olhássemos para o fogo, sem continuar a alimentá-lo com lenha. O fogo, por mais violento que seja, não tardará a apagar-se sozinho. Da mesma forma, se simplesmente pousarmos o olhar da nossa atenção sobre a raiva, é impossível que ela perdure por si mesma. Toda emoção, por mais intensa que seja, esgota-se e se esvanece naturalmente quando cessamos de alimentá-la.
Saibamos, enfim, que a raiva, por mais forte que seja, não passa de um pensamento. Vamos examiná-la mais de perto. De onde ela tira o poder de nos dominar a tal ponto? Possui uma arma? Queima como fogo? Esmaga-nos como uma rocha? Podemos localizá-la em nosso peito, coração ou cabeça? Se acreditarmos que sim, tem ela cor ou forma? Teremos muita dificuldade de encontrar nela tais características. Quando contemplamos uma nuvem espessa num céu de tempestade, vemos que ela tem um ar maciço que poderíamos nos assentar sobre ela. Entretanto, se voássemos em sua direção, nada encontraríamos para pegar: só há vapor impalpável. Da mesma maneira, examinando atentamente a raiva, nada encontraremos que possa justificar a influência tirânica que exerce sobre nós. Quanto mais tentamos defini-la, mais ela desvanece sob nosso olhar como a geada sob os raios do sol.
Finalmente, de onde vem essa raiva? Onde está agora? Para onde foi? Tudo o que podemos afirmar é que provém de nossa mente, permanece ali alguns instantes e desaparece em seguida. Quanto à mente, ela é imperceptível, não constitui uma entidade distinta e não é mais do que um fluxo de energia.
Se em cada vez que uma forte emoção surgir nós aprendermos a administrá-la com inteligência, não somente dominaremos a arte de liberar as emoções no exato momento em que surgem, mas também destruiremos progressivamente as tendências que fazem com que as emoções apareçam. Assim, pouco a pouco, nossos traços de caráter e nossa maneira de ser se modificarão.
Esse método pode parecer um pouco difícil no início, sobretudo no calor dos acontecimentos, mas com a prática vai se tornar cada vez mais familiar. Logo que a raiva ou qualquer outra emoção perturbadora surgirem em nossa mente, vamos identificá-las de imediato e saberemos enfrentá-las antes que tomem uma grande dimensão. É como se conhecêssemos a identidade de um batedor de carteira: mesmo que se misturasse à multidão, iríamos localizá-lo instantaneamente e ficaríamos de olho nele para que não roubasse nossa carteira.
Assim, familiarizando-nos cada vez mais com os mecanismos da mente, e cultivando a consciência plena, não deixaremos mais a centelha das emoções nascentes se transformar em incêndio capaz de destruir nossa felicidade e a dos outros.
Esse método pode ser utilizado com todas as emoções perturbadoras; ele permite fazer uma ponte entre a prática da meditação e as ocupações da vida cotidiana. Se nos habituarmos a ver os pensamentos no momento em que surgem, e deixá-los se dissipar antes que tomem posse de nós, será muito mais fácil continuarmos a ser donos de nossa mente e a administrar as emoções conflituosas no meio de nossas atividades diárias.


“Lembrem-se de que os pensamentos são apenas o produto da conjunção fugaz de um grande número de fatores. Eles não existem por si mesmos.

Também, logo que surgirem, reconheçam sua natureza que é própria da vacuidade. Eles perderão logo o poder de gerar outros pensamentos e a cadeia da ilusão será interrompida. Reconheçam essa vacuidade dos pensamentos e deixem que estes se soltem na claridade natural da mente límpida e inalterada”.

“Quando um raio de sol bate sobre um pedaço de cristal, jorram luzes irisadas brilhantes, mas insubstanciais. Assim também os pensamentos, em sua infinita variedade – devoção, compaixão, maldade, desejo-, são inacessíveis, imateriais, impalpáveis. Não há nenhum que não seja vazio de existência própria. Se você souber reconhecer a vacuidade de seus pensamentos no exato momento em que surgem, eles se dissolverão. O ódio e o apego não poderão mais abalar a sua mente, e as emoções perturbadoras cessarão por si mesmas. Você não acumulará mais atos nefastos e, consequentemente, não causará mais sofrimento. É a derradeira pacificação.”

Dilgo Khyentsé Rinpoche

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